São Paulo, megalópole de onze milhões de habitantes, babel contemporânea, cidade global, selva de concreto, aço e vidro, fumaça, trânsito caótico, polifonia de ruídos, ou, como quis Caetano Veloso: mais possível novo quilombo de Zumbi. São Paulo, cidade provinciana, algumas dezenas de milhares de almas habitando casas de barro, transitando lentamente por ruas estreitas e tortas, esbarrando em escravos. Nos chafarizes públicos, filas para se obter água para os lares. Um sino soa - São Francisco ou São Bento - avisando da saída da procissão, cascos de cavalo batem no chão, algumas carroças. Na Rua do Comércio imperam os trajes austeros e a infinita coleção de barbas, bigodes, cavanhaques, suíças e afins. Há uma cidade, duas ou muitas?
A cidade de São Paulo recebeu ao longo de sua existência uma vastidão de interpretações, títulos, rótulos e mitos: Cidade que nunca dorme, Locomotiva do Brasil, Túmulo do Samba, Capital da Solidão, Berço da Nação... Todas as denominações, como mitos, trazem possibilidades de compreensão, mas não verdades ou mentiras absolutas. Memória da Cidade: história e patrimônio de São Paulo põe no mesmo espaço e tempo duas cidades separadas não por uma distância geográfica, mas por mais de uma centena de anos, flagradas cada uma no seu tempo por um fotógrafo. A exposição vai de 23 de janeiro a 28 de fevereiro de 2010, no espaço Caixa Cultural (clique para saber mais).
Sobre os fotógrafos:
Militão Augusto de Azevedo (Rio de Janeiro, 1837 – São Paulo, 1905) foi o primeiro fotógrafo a registrar a cidade de São Paulo, no início da década de 1860. Suas fotografias (um conjunto de aproximadamente três dezenas de cenas da cidade, diante de mais de 12.000 retratos executados pelo fotógrafo) se tornaram uma fonte de inestimável valor para o conhecimento da São Paulo oitocentista. Desse conjunto de fotografias de cenas, Memória da Cidade trará 25 delas, pela primeira vez reunidas e expostas tal como foram produzidas por Militão: tendo a cidade como “modelo”.
Renato Suzuki (São Paulo, 1978), fotógrafo da nova geração, também dedicado à tradução fotográfica da cidade de São Paulo, retorna aos espaços retratados por Militão há mais de cem anos, e os relê, reinterpreta, busca as aproximações e distanciamentos entre esses dois mundos, a cidade hoje e a do século XIX. Nesse jogo de aproximações revela-se a linha vital que liga dois fotógrafos, dois mundos, duas cidades, duas técnicas, dois olhares: um único espaço e a memória. O conjunto de aproximadamente 50 imagens, produzido nos últimos dois anos por Renato Suzuki, materializa esse jogo.
Curso livre sobre a história da cidade
Simultaneamente à exposição, o projeto Memória da Cidade traz um curso livre a respeito da história cultural da cidade de São Paulo, ministrado pelos professores Carlos Eduardo França de Oliveira, Erik Hörner e Rodrigo da Silva, formados pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e pesquisadores ligados ao Museu Paulista da USP (mais conhecido como Museu do Ipiranga). O curso busca fazer um itinerário pelos modos de vida na cidade de São Paulo ao longo de sua história, dos hábitos, do cotidiano, do espaço da cidade, sua evolução, procurando apresentar outras possibilidades de interpretação, algumas das quais pondo em questão mitos e pressupostos a respeito dela. Nesse caminho, a cidade, sobretudo sua região central, ressurge como espaço, como cenário das interpretações fotográficas de Militão Augusto de Azevedo e de Renato Suzuki e como “patrimônio cultural”, repositório de memórias da população, lugares – inclusive – de parte da “mitologia paulistana”.
Ele será ministrado do dia 26 de janeiro (terça-feira) a 03 de março de 2010 (quarta-feira), todas terças e quintas-feiras das 7 às 21h, sendo que haverá recesso no dia 16 de fevereiro (Carnaval). Também haverá dois módulos especiais nos sábados (20 e 27 de fevereiro), das 09 ao meio dia. São 60 vagas e certificação mediante freqüência superior a 70% da grade.
Serviço:
Visitação: 23 de janeiro a 28 de fevereiro de 2010
Horários: De terça-feira a domingo, das 9h às 21h.
A Caixa Cultural SP estará aberta durante o feriado de 25 de janeiro de 2010 (segunda-feira, aniversário de São Paulo).
Entrada: franca